Em resumo:
- Jorge Mesquita chegou aos Estados Unidos em 1998, recomeçou trabalhando como engraxate e em restaurantes e hotéis antes de passar mais de uma década como taxista;
- Em 2013, fundou a Black Hawk Sedans, em Washington, D.C., que cresceu a partir de indicações e avaliações de clientes e hoje atua com transporte privado, turismo, eventos e serviços corporativos;
- Entre os principais desafios estão a adaptação à tecnologia, as mudanças no turismo e a instabilidade econômica e política.
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Quando Jorge Mesquita desembarcou nos Estados Unidos, em 1998, estava longe de imaginar que anos depois teria uma empresa de transporte privado e turismo na região de Washington, D.C. Aos 35 anos, o brasileiro havia encerrado um negócio no Brasil e enfrentava dificuldades para encontrar novas oportunidades profissionais. Do outro lado da fronteira, recomeçou engraxando sapatos.
Vieram depois os trabalhos em restaurantes e hotéis, as jornadas que chegavam a 17 horas por dia e mais de uma década como taxista. Até que uma conversa com uma brasileira abriu caminho para uma nova possibilidade: aproveitar o conhecimento adquirido nas ruas da capital americana para atender turistas.
Em outubro de 2013, a ideia ganhou oficialmente o nome de Black Hawk Sedans. Atualmente, a empresa atua com transporte privado, turismo, traslados, viagens corporativas, eventos e passeios na região de Washington.


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Como tudo começou
Antes de se mudar para os Estados Unidos, Mesquita já havia experimentado o empreendedorismo no Brasil. Seu último negócio foi uma agência de viagens, que acabou fechando na década de 1990. A situação financeira se deteriorou depois disso. Segundo ele, chegou a vender canetas como camelô para conseguir sustentar a família. Aos 35 anos, também percebia dificuldades para se recolocar profissionalmente.
Foi quando um amigo que já morava nos Estados Unidos sugeriu a mudança e ofereceu apoio para que ele começasse uma nova vida.
“Eu cheguei a vender até caneta Bic como camelô para poder arrumar dinheiro e sustentar a família. Eu conversava com meus amigos e eles sempre me davam força, mas eu não queria sair do Brasil, porque tinha a barreira da cultura e, na época, da língua também, embora eu já falasse um pouquinho de inglês. Eu não queria arriscar, mas depois cheguei a uma situação em que pensei: eu vou ter que tentar, porque como está aqui não tem mais chance”, lembra o empreendedor.
A chegada aos Estados Unidos aconteceu em 1998. Mesquita guarda a data na memória por uma coincidência: desembarcou justamente no dia em que o Brasil estreou na Copa do Mundo da França. O começo foi possível graças à rede de apoio que encontrou. Um amigo ofereceu moradia e também o primeiro trabalho. A função, entretanto, estava distante do setor de turismo no qual atuaria posteriormente.
“Eu até me considero uma pessoa abençoada, porque vim para cá e já havia uma estrutura me esperando. O meu amigo, por exemplo, me ajudou, fiquei na casa dele e ele me deu emprego. Comecei a trabalhar engraxando sapatos, porque ele tinha pontos de engraxar sapatos aqui, inclusive na Casa Branca, no Capitólio e em vários hotéis cinco estrelas. Comecei minha vida aqui nos Estados Unidos literalmente engraxando sapatos”, recorda Mesquita.
Depois, passou a trabalhar em hotel e restaurante. Lavou pratos, carregou malas e, em determinado período, conciliou três empregos. A oportunidade seguinte foi comprar um táxi. A profissão que poderia parecer apenas mais uma etapa do recomeço acabou se transformando em uma atividade que exerceu durante cerca de 14 anos.
“Fui um feliz taxista por 14 anos aqui. Se não fosse a Uber, eu acho que seria motorista de táxi até hoje”, aponta Mesquita.
A criação da Black Hawk Sedans
A transformação de motorista em empresário aconteceu gradualmente. Com as mudanças provocadas pela chegada de plataformas como a Uber, Mesquita comprou um veículo de categoria superior e começou a trabalhar também com transporte executivo. Nesse período, conheceu uma blogueira brasileira e a conversa entre os dois acabou se tornando um ponto de virada.
“Ela me deu uma ideia. Falou: ‘oor que você não faz isso? Você conhece tão bem a cidade, já tem um perfil de ser um cara bem falante. Eu tenho um blog em que falo de viagens e muita gente lá no Brasil pergunta se tem alguém em Washington que possa passear com eles e mostrar a cidade direitinho’”, conta Jorge Mesquita.
Naquele período, segundo o empreendedor, havia um movimento intenso de brasileiros viajando aos Estados Unidos. As indicações começaram a trazer clientes e ele passou a combinar os serviços de transporte com passeios pela capital americana.
Outro passo importante aconteceu por sugestão de um cliente brasileiro, que perguntou se o motorista possuía perfil no TripAdvisor. Mesquita sequer conhecia a plataforma. A criação do perfil ampliou o alcance para além dos brasileiros. Como as avaliações podiam ser encontradas por viajantes de diferentes países, o negócio passou a receber clientes americanos e europeus.
“Quando você abria o TripAdvisor aqui, a pessoa obviamente via o meu nome, com os meus reviews bons, já traduzidos para o inglês. E comecei a crescer aqui. Teve uma época, até um ou dois anos atrás, em que praticamente inverteu: 90% da minha clientela eram americanos e uma parte de europeus. Os brasileiros ficaram com 10%”, destaca Mesquita.
A Black Hawk Sedans foi formalmente fundada em outubro de 2013. O nome surgiu em uma conversa familiar. Mesquita e o enteado procuravam uma referência que funcionasse para o público americano e consideraram diferentes animais antes de chegar ao Black Hawk, que significa Falcão Negro.
Como funciona a empresa atualmente
O negócio criado a partir dos passeios turísticos se diversificou. Hoje, a Black Hawk Sedans trabalha com diferentes modalidades de transporte terrestre privado. Os serviços incluem transporte para aeroportos, viagens corporativas, city tours, passeios por vinícolas, casamentos, eventos e outras ocasiões particulares.
O próprio perfil dos clientes também mudou. Embora a empresa tenha crescido inicialmente impulsionada por turistas brasileiros, Mesquita afirma que hoje uma parcela relevante dos negócios está ligada ao mercado americano, inclusive por meio de contratos com empresas que atendem clientes de outras nacionalidades.
A reputação construída ao longo dos anos é tratada pelo empresário como um dos ativos do negócio. Mesquita diz que prefere recusar um serviço quando acredita que não será possível entregar o padrão esperado.
Os motoristas, segundo ele, são parte central dessa estratégia: “graças a Deus, a gente nunca teve um acidente, nunca teve atraso em nenhum serviço. Desde que temos a Black Hawk, nunca tivemos uma avaliação ruim, nunca tivemos alguma coisa que manchasse a nossa credibilidade. Isso tudo são os nossos motoristas. Os caras são bons”.
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Os desafios de empreender nos Estados Unidos
A trajetória da Black Hawk Sedans também passou por momentos em que o modelo precisou ser revisto. Um deles aconteceu durante a pandemia de Covid-19. Mesquita chegou a manter uma frota de 11 veículos, mas precisou vender os carros diante da paralisação do setor.
Quando a demanda voltou, decidiu não reconstruir a empresa exatamente como era antes. Nesse novo modelo, os motoristas ganharam mais autonomia e passaram a assumir despesas e responsabilidades relacionadas aos próprios veículos. A Black Hawk, por sua vez, caminha para um formato no qual administra os serviços sem necessariamente ser proprietária de toda a frota.
Outro desafio atual está na tecnologia. Mesquita se define como integrante da “velha guarda” e admite preferir conversas presenciais e contatos por telefone. A transformação digital, no entanto, tem exigido uma mudança de comportamento.
“Quando montei a Black Hawk foi uma coisa tão rápida que durante uns cinco ou seis anos eu nunca tinha investido em Google Ads, nem sabia o que era isso. Facebook Ads, jornais locais, eu não conhecia isso. O telefone não parava de tocar. Era só recomendação”, relata Mesquita.
O empresário reconhece, porém, que aquele cenário estava relacionado a um momento específico do turismo e que hoje a diversificação dos canais se tornou necessária, tanto que a empresa conta com site próprio, Instagram, Facebook, Linkedin e outras plataformas.
Mudanças no turismo exigem novos mercados
A Black Hawk Sedans também precisou aprender a lidar com oscilações que não estão sob o controle de uma empresa individual. Mesquita relata um momento de desaceleração do turismo em Washington e afirma que a companhia tem buscado reduzir a dependência de um único perfil de viajante.
“Estamos diversificando. Hoje em dia, a Black Hawk Sedans não é uma empresa só de turismo. Ela faz tudo que é relacionado a transporte terrestre: serviço de chauffeur para executivos, carros para eventos, tours nas vinícolas da Virgínia e continuamos fazendo os tours”, destaca Mesquita.
Geograficamente, a diversificação também se tornou uma estratégia. Além de brasileiros, americanos e europeus, a empresa passou a olhar para países latino-americanos.
Conselhos para brasileiros que querem empreender no exterior
Depois de quase três décadas nos Estados Unidos, Mesquita evita transformar a própria trajetória em uma fórmula que possa ser simplesmente repetida por outro empreendedor. No momento atual, inclusive, sua recomendação para quem pensa em investir nos Estados Unidos é de cautela.
A posição é influenciada pela experiência de administrar um negócio diretamente dependente da circulação de pessoas e do turismo, setores particularmente expostos a mudanças econômicas e políticas.
A recomendação de cautela não apaga, porém, a trajetória construída desde 1998. Mesquita chegou ao país depois de fechar uma empresa no Brasil, começou engraxando sapatos, lavou pratos, carregou malas, trabalhou jornadas de até 17 horas e passou mais de uma década dirigindo um táxi.
Anos depois, transformou o conhecimento adquirido nas ruas de Washington em um negócio próprio. Ao olhar para esse percurso, atribui parte da história às oportunidades que encontrou nos Estados Unidos: “eu agradeço muito ao povo americano. Eles me deram condições para que eu conseguisse me reabilitar, não só na minha autoestima, como também financeiramente”.
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