Em resumo:
- Diego Bove deixou o Brasil em 2018 e, no ano seguinte, estruturou na Europa um escritório voltado a cidadania, imigração e Direito Internacional;
- Entre os principais desafios de empreender no exterior, o advogado destaca a adaptação às diferenças tributárias, administrativas e culturais entre Brasil, Portugal e Espanha;
- Para brasileiros que querem empreender fora do país, Bove recomenda conhecer as regras e a cultura locais, entender o ambiente do negócio e, ao mesmo tempo, “nunca perca a brasilidade”.
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A trajetória de Diego Bove na advocacia começou no Brasil, mas ganhou novos contornos depois de uma mudança de país. Em 2018, o advogado deixou o território brasileiro e foi para a Europa. No ano seguinte, estruturou o escritório que hoje atende demandas relacionadas a imigração, nacionalidade, regularização documental, reconhecimento de cidadania e Direito Internacional.
Atualmente, Bove atua entre Brasil, Portugal e Espanha e é inscrito profissionalmente nos três países. A construção do negócio no exterior, no entanto, exigiu mais do que transportar para a Europa os conhecimentos adquiridos durante anos de carreira. Foi necessário compreender outras regras tributárias, adaptar-se a diferenças culturais e aprender uma nova maneira de administrar a atividade profissional.
Antes disso, sua trajetória havia começado longe do Direito. A primeira formação foi como técnico em eletrônica. A decisão de cursar Direito, segundo ele, teve inicialmente uma motivação bastante prática: era uma graduação que conseguia pagar.
“Eu fui para a faculdade de direito por uma questão pura e simplesmente econômica. Porque minha mãe tinha desconto no primeiro semestre. Era uma faculdade acessível, dentro do que do que dava para pagar, do que eu trabalhando conseguia pagar”, lembra Bove.
Formado em 2004, ele já acumulava experiências na área antes mesmo de concluir a graduação. Chegou a prestar e ser aprovado em concursos públicos, mas acabou escolhendo a advocacia.


Reprodução/Arquivo pessoal
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Mudança para a Europa
Quando decidiu se mudar, Bove já havia estruturado atividades no Brasil que permitiam obter renda sem depender de sua presença diária. A ideia inicial, portanto, não era desembarcar na Europa e imediatamente reconstruir a carreira jurídica.
A decisão de sair do Brasil esteve ligada principalmente à busca por uma mudança na qualidade de vida. Na época, os filhos eram adolescentes e a preocupação com a segurança pesou na escolha. A mudança ocorreu em 2018. A retomada da advocacia do outro lado do Atlântico aconteceu aos poucos e, em parte, de maneira espontânea.
Ao conversar com brasileiros, o sotaque e a profissão acabavam despertando perguntas. As pessoas queriam entender procedimentos relacionados a documentos e à própria permanência na Europa. Bove começou orientando conhecidos e, depois, passou a ser chamado para acompanhá-los.
“Você querendo ou não, as pessoas reconhecem a tua forma de falar, reconhecem o sotaque, pergunta se é brasileiro daqui, o que faz. As pessoas me perguntavam: ‘Você é advogado? Você sabe como é que faz isso? Você sabe como é que faz aquilo?’”, conta Bove.
No início, ele ainda estava conduzindo o reconhecimento da própria formação e não tinha como prioridade desenvolver uma carreira jurídica na Europa. A demanda das pessoas ao redor começou a mudar os planos. Em 2019, o escritório foi oficialmente estruturado.
A ligação com a Espanha começou antes da mudança
A atuação com cidadania e nacionalidade também não surgiu apenas depois da chegada à Europa. Brasileiro e espanhol, Bove já trabalhava com questões relacionadas à Espanha enquanto ainda vivia no Brasil. Essa experiência ajudou a definir uma especialidade que ganharia ainda mais espaço posteriormente.
Segundo Bove, mudanças na legislação espanhola sobre nacionalidade também ampliaram a procura por seus serviços. A experiência acumulada anteriormente passou a ser demandada tanto por pessoas interessadas nos processos quanto por outros profissionais.
“Eu dei a sorte de estar aqui quando a Espanha fez uma uma legislação específica para a nacionalidade de origem e isso sempre foi a minha expertise. No Brasil eu briguei com vários consulados por causa disso”, aponta Bove.
A especialização contribuiu para ampliar a visibilidade do escritório e consolidar uma atuação jurídica conectada a diferentes países.
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Desafios de empreender no exterior
Se o conhecimento jurídico já existia, a gestão de um negócio internacional trouxe um novo conjunto de desafios. Para Bove, um dos principais foi entender a tributação. O escritório lida com realidades de Brasil, Portugal e Espanha, o que significa administrar sistemas que possuem regras e obrigações diferentes.
O desafio não se limita às diferenças entre Brasil e Europa. Mesmo Portugal e Espanha exigem formas distintas de organização: “equilibrar os três lados é bem difícil”.
Na avaliação do advogado, um dos erros que podem comprometer negócios de brasileiros no exterior é acreditar que a experiência adquirida no país de origem pode ser simplesmente replicada em outro mercado.
“Eu vejo muita gente que se aventura a ter um próprio negócio e acaba entrando em falência. Não porque não tem cliente ou porque trabalha mal, mas por má gestão”, afirma Bove.
Diferenças culturais também entram na gestão
Outro aprendizado aconteceu fora das planilhas e das regras tributárias. Ao viver e trabalhar na Europa, Bove percebeu que comportamentos considerados naturais para um brasileiro podem ter significados diferentes para europeus. Para ele, compreender esses códigos culturais é parte da adaptação de quem decide construir um negócio em outro país.
Uma experiência simples com o próprio carro ajudou a ilustrar essa diferença. Ao levar o veículo para trocar a bateria de um sensor, deixou no banco uma peça do retrovisor que também precisava ser recolocada. Como não pediu expressamente o segundo reparo, encontrou a peça exatamente onde havia deixado quando voltou à oficina.
O que poderia ser interpretado inicialmente como falta de atenção, segundo Bove, está ligado a outra concepção de respeito: “quando a gente pensa que não precisa, nós estamos julgando que eles são mal educados, não é isso. A educação deles é respeito à sua intimidade”.
A conclusão, para ele, é que o brasileiro precisa evitar avaliar a cultura local exclusivamente a partir de suas próprias referências. “Você tem que viver nisso para você entender como é que funciona […] Não é mal educado, é é outra educação”, completa o advogado.
Diferenciais do negócio
As diferenças culturais também ajudaram Bove a consolidar uma característica que considera central em sua atuação: explicar ao cliente o que está acontecendo em vez de apostar na imagem tradicional de autoridade associada à profissão. “Eu diria que, dentre os advogados, eu sou o menos ortodoxo”, esclarece o advogado.
Para ele, a formalidade excessiva pode criar uma distância que prejudica a própria prestação do serviço: “eu sou radicalmente contra isso. Porque isso cria um distanciamento e você perde detalhes que podem fazer toda a diferença”.
Bove diz que procura reproduzir com os clientes aquilo que espera quando contrata um profissional de uma área que não conhece: compreender por que determinada decisão está sendo tomada. Essa postura, segundo ele, passa também por identificar problemas que o próprio cliente talvez ainda não tenha percebido.
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Dicas para empreender fora
Depois de anos administrando uma atividade profissional ligada a diferentes países, Bove resume parte do aprendizado em um conselho: antes de abrir um negócio no exterior, é necessário conhecer o lugar. Isso inclui entender as pessoas, os hábitos e, principalmente, as regras que afetam aquela atividade.
“Cada lugar tem uma característica própria que pode fazer a diferença. Não dá para a gente comparar a forma de trabalho europeia com a forma de trabalho norte-americana, nem a norte-americana com a canadense. Nem mesmo a espanhola com a marroquina, que está só a 14 km de distância”, explica o advogado.
A primeira recomendação é justamente evitar a ideia de que existe uma fórmula única para empreender fora do país. Mesmo contando com profissionais especializados para cuidar das obrigações administrativas do negócio, ele considera importante que o empresário tenha conhecimento suficiente para acompanhar o que acontece.
“Você pode não pôr a sua mão em tudo do seu negócio. Mas você tem que ter um mínimo de conhecimento do entorno. Então, conheça o lugar e conheça as características do governo em relação ao seu negócio. Isso vai fazer toda a diferença”, aconselha Bove.
“Nunca perca a brasilidade”
Há, porém, uma característica que Bove acredita que não deve ser deixada para trás durante esse processo de adaptação: a maneira brasileira de criar proximidade no atendimento. “O brasileiro atende carinhosamente. Isso faz toda a diferença”, destaca o empreendedor.
Na visão dele, adaptar-se não significa tentar apagar as diferenças culturais para reproduzir integralmente o comportamento do país de destino.
Planos para ampliar a atuação no exterior
Depois de construir uma atuação que começou fortemente conectada à comunidade brasileira e espanhola, Bove afirma que o próximo objetivo é ampliar o alcance do escritório independentemente da nacionalidade de quem procura atendimento.
“Eu quero alcançar o máximo de pessoas possível. Já atendo marroquino, tunisiano, português, espanhol. Tem gente aqui de todos os lugares”, diz o advogado.
O crescimento pretendido também está relacionado ao tipo de reconhecimento que busca construir. Em vez da figura distante do advogado, Bove prefere ser lembrado pela capacidade de solucionar os problemas de quem chega ao escritório.
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